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O fim da escala 6×1, em discussão no Congresso Nacional, pode diminuir o nível da produtividade no Brasil, avaliam especialistas. E isso preocupa representantes do setor produtivo, já que o cenário atual do Brasil, de acordo com eles, já mostra um padrão de eficiência abaixo do observado em países desenvolvidos.
Enquanto o ganho médio anual de produtividade no mundo ficou em torno de 1,5% entre 2016 e 2025, no Brasil, o avanço não ultrapassou 0,5% no mesmo período, segundo o compilador de dados governamentais CEIC Data.
A produtividade está ligada à entrega de resultados de uma pessoa ou empresa durante um período específico. Segundo o especialista em contas públicas Murilo Viana, a produtividade consiste no “valor agregado monetário por trabalhador”, ou seja, a geração de riquezas produzidas a partir do trabalho de alguém.
“O conceito mais claro de produtividade é quanto se gera de valor. Ou seja, o trabalhador médio gera R$ 1000 por hora de trabalho. Por mês, o trabalhador vai gerar [a partir da sua força de trabalho] R$ 200 mil para a empresa. Se reduzir a jornada, [o trabalhador] vai passar a gerar [com o mesmo salário], por exemplo, R$ 150 mil”, exemplifica Viana.
Já o professor do FGV Ibre (Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas) Fernando de Holanda Barbosa Filho explica que a produtividade do trabalho mensura a eficiência na utilização dos recursos produtivos, isto é, mede a eficiência do trabalho, sendo mensurada como a razão entre o valor adicionado por trabalhador ou por hora trabalhada.
A produtividade também pode ser medida pelo valor adicionado por trabalhador ou por hora trabalhada, diz o professor.
“Se o trabalhador produz um artigo por hora e trabalha 20 horas, vai produzir 20 artigos por dia. Se o trabalhador passa a trabalhar 10 horas, a produtividade vai cair para 10 artigos por dia”, disse Fernando ao CNN Money.
De acordo com Murilo Viana, há uma série de fatores que explicam o ritmo de crescimento moderado da produtividade do Brasil nos últimos anos. Além da carga horária de trabalho, também corroboram os níveis de mecanização e industrialização dos setores econômicos. Quanto mais mecanizado, maior a produtividade do profissional, explica.
Na avaliação do especialista, a taxa básica de juros em um patamar elevado também afeta a produtividade dos trabalhadores. Com a Selic alta, há um estímulo menor para investimentos e consequentemente um freio na modernização dos setores.
No Congresso Nacional, discute-se a possibilidade de reduzir a carga horária máxima de trabalho, que atualmente está em 44 horas, para 40 horas semanais. Para o professor Fernando de Holanda Barbosa Filho, é a redução do volume de horas trabalhadas que pode impactar a produtividade.
“A maior preocupação do momento quando se discute a mudança da jornada de trabalho, não é a mudança do 6×1 para 5×2, mas sim a redução da jornada total de trabalho. Como as pessoas vão trabalhar menos horas, elas vão gerar menos produtos”, diz.
Adicionalmente à mudança da carga horária, o professor afirma que a mudança na jornada de trabalho vai alterar a forma de se produzir. “Uma vez que você mexe nisso, a forma que as empresas operam vai mudar. Essa mudança também pode impactar a produtividade”, diz.
Murilo Viana também considera que a proposta em tramitação no Congresso Nacional tem potencial para trazer impactos negativos na economia brasileira. O especialista avalia que a redução na carga horária pode aumentar o índice de informalidade da população, impulsionando o fenômeno da “pejotização”.
Para manter o mesmo índice de produtividade com menos horas trabalhadas, cogita-se a necessidade de contratar mais pessoas. No entanto, Murilo alerta que novas contratações não são “triviais” diante do aumento de custos.
Além disso, o especialista destaca que o Brasil vive o menor patamar de desemprego da série histórica. No ano passado, a taxa anual de informalidade caiu para 38,1%. Em 2024, era 39%.
“Não é trivial implementar e os impactos econômicos são expressivos. Ou a empresa vai reduzir a produção ou vai ter que contratar mais gente ou trocar a mão de obra formal pela informal. Contratar mais gente significa mais custos em um cenário em que o desemprego está no menor patamar da série histórica”, disse Murilo ao CNN Money.
Levantamento do CLP (Centro de Liderança Pública) aponta que até 640 mil empregos podem ser perdidos caso a jornada semanal seja reduzida de 44 para 40 horas. Comércio e construção civil estão entre os setores que mais devem sentir o impacto.
Murilo Viana também ressalta que nem todos os segmentos da economia conseguem mecanizar os seus processos para manter a mesma produtividade com menos horas de trabalho. Para ele, o pleito dos trabalhadores é legítimo, mas o Brasil precisa encontrar meios de manter a sua produtividade, caso a proposta seja aprovada.
“É uma demanda legítima dos trabalhadores. O Brasil precisa pensar em ganhos de produtividade para viabilizar arranjos mais flexíveis conciliando com o crescimento sustentável”, declarou.